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Entrevista com professor e escritor Valdemir Zamparoni

 

O Centro Interdisciplinar de Estudos África-América, da Universidade Estadual de Goiás trouxe recentemente a Anápolis Valdemir Zamparoni, professor da Universidade Federal da Bahia e autor do livro De escravo a cozinheiro: colonialismo e racismo em Moçambique, lançado através da Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba), onde leciona na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Professor da Universidade Federal da Bahia com doutorado em Estudos Africanos, Zamparoni conversou com os estudantes goianos sobre seu livro, cuja narrativa situa o sul de Moçambique entre 1890 e 1940. No livro, o autor, através de documentos históricos e, principalmente, da imprensa moçambicana, mostra como foi o processo de desagregação dos africanos e aponta as convergências e as divergências do colonialismo. Descreve, também, os mecanismos usados na colonização e suas conseqüências sociais, políticas, culturais e econômicas. De acordo com a análise do africanista, se construiu uma imagem homogênea dos povos negros do continente africano, que se choca, claramente, com a diversidade cultural e étnica lá existente. Segundo Zamparoni, as correntes de pensamento que contribuíram para isto podem ser classificadas como desumanizadoras, na medida em que negavam ou ignoravam a diversidade humana. Foi sobre esse processo de colonização e a falta de conhecimento dos brasileiros sobre a cultura e história da África que o professor conversou com o Jornal do Cerrado na entrevista que se segue.


O senhor trabalhou em um centro de estudos africanos em Moçambique durante três anos. Qual era o principal foco de sua pesquisa?
Fui para Moçambique com o propósito de iniciar um projeto de pesquisa que tinha como tema educação. No país, além de começar essa investigação, esse trabalho de pesquisa, integrei a equipe chamada Oficina de História, que tinha como preocupação estudar e entender como é que, sobretudo, na região Norte do País, onde começou a luta pela independência, as pessoas viam esse processo, essa memória social, a memória coletiva. Comecei a trabalhar com o projeto que se tornou livro um pouco depois. Fui afinando as coisas, e acabei por chegar a uma conclusão de que havia um grupo social no passado em Moçambique, que havia sido fundador do Grêmio Africano de Lourenço Marques que era como era chamada a capital de Moçambique. Esse grêmio foi fundado por um grupo de negros e mestiços que pretendiam defender seus interesses em relação ao colonialismo já implantado. Isso foi em 1908. Em seguida eles lançaram um jornal chamado O Africano que em 1919 mudou de nome para o Brado Africano. Esse grupo não era estudado e sua raiz estava inicialmente ligada à formação de uma noção de moçambicanidade e à identidade de uma boa parte dos líderes que depois lutaram pela independência de Moçambique. A minha orientação para o trabalho de pesquisa e a minha estada em Moçambique se deu muito neste caminho. Li muitos microfilmes nos três anos em quem que estive lá. Também fiz muito trabalhos de arquivo de documentação que resultaram em um trabalho de doutoramento. Finalmente uma parte desse trabalho se converteu nesse livro.


Como o senhor apresentaria De Escravo a Cozinheiro: Colonialismo e Racismo em Moçambique?
O título e o subtítulo já dizem muito do conteúdo do livro. Quando os portugueses chegaram a Moçambique no começo do século XV, se instalaram na região que ficou conhecida como Vale do Zambeze e criaram instituições semelhantes àquelas que tínhamos no Brasil, as capitanias hereditárias. Na costa do que hoje conhecemos como Moçambique só existiam entrepostos comerciais. Então, na verdade, o colonialismo de fato começou com a corrida imperialista dos anos 1880 em diante, com a conferência de Berlim e com o domínio militar.
A idéia do livro era procurar entender como o domínio português era visto pelos portugueses que participavam do processo. E como eles viam essa população que estava sendo colonizada. O livro pretende buscar nas entrelinhas da documentação uma leitura que recupera a voz desses que foram dominados; que não têm a sua voz explicitada nesse documento, mas pelo relato dos conquistadores, pode-se intuir, verificar, que esses que estavam dominados não achavam nada agradável essa dominação, e qual a atitude que eles tinham em relação à dominação.


Como o senhor explora essa situação no livro?
O livro é dividido em quatro capítulos. O primeiro fala sobre esse lugar, essa presença portuguesa nesta área da costa oriental da África, mais exatamente de como se deu a conquista e o início da implantação. Os capítulos seguintes tratam desse período: uma vez conquistado o território militarmente, quais os mecanismos de dominação que foram implantados. O princípio que orientava tudo isso era de que os povos africanos eram povos miseráveis, selvagens... Ou seja, muito inspirado em toda uma teoria do racismo
científico do Século XIX e que, portanto, justificava essa implantação. A idéia era de que os europeus estavam lá para civilizar esses povos. Mas havia mesmo uma clareza de que era para fazer negócios, para explorar o que a colônia tinha a oferecer para Portugal. Isso é extremamente claro e até declarado. O discurso era de que os indígenas, termo usado pelos europeus para tratar da população local, eram preguiçosos, indolentes. E partiam da concepção de que trabalho poderia civilizar. Então, elabora-se todo um discurso em torno da moral e da obrigação do trabalho. Uma noção de trabalho à moda européia, que não considerava as formas locais como sendo trabalho: caça, pesca, manutenção das casas, todas as atividades desenvolvidas pelas populações africanas locais eram consideradas não-trabalho. E trabalho seria o assalariado, nos moldes europeus. Um dos mecanismos de obrigar as pessoas a entrar no mercado de trabalho foi a introdução de impostos, um deles, o mais conhecido se chama imposto de palhota, nome que os portugueses davam às casas da população local. Imposto anual, que foi crescendo gradualmente ao longo dos anos, o que obrigava as pessoas a venderem sua força de trabalho para obter dinheiro pagar o imposto. E o outro mecanismo que usaram com muita freqüência foi a expropriação de terra. Para transformar as pessoas em vendedora da força de trabalho foi decidido que as terras todas pertenciam ao Governo Colonial e não à população local. O Governo
começou a arrendá-las para os colonos europeus.


Os nativos foram submetidos trabalho forçado?
O trabalho forçado era lei. O chibalo obrigava pela legislação todo homem entre os 15 e os 65 anos de idade, a prestar durante três a seis meses por ano, trabalho assalariado. A documentação e o livro tratam disso. Mostra que na verdade de assalariado só tem o nome. Tratava-se de prática semi-escravista. Em que os indivíduos eram recrutados a manu militari, conduzidos sob coerção para o local de trabalho, eram mantidos sob vigilância e sofriam todas as punições típicas do regime escravista, os patrões tinham poder quase ilimitado.

Até quando durou essa situação?

Até 1961, em pleno século XX, quando foi abolido o sistema de indigenato, que classificava uma boa parcela da população local como indígena, sem nenhuma cidadania, direito civil, ou jurídico. Essas mudanças integram toda a onda das independências africanas nos anos 60. Com as profundas denúncias cada vez mais insistentes feitas pelos organismos internacionais contra as práticas do colonialismo portugueses. Foi em de 1961 que começou a luta armada na Guiné-Bissau.


Como o senhor analisa as percepções brasileiras sobre o passado africano no que se refere à cultura e educação?
O mundo ocidental construiu a partir do Século XV uma imagem sobre a África. Essa imagem é uma imagem desabonadora. Os europeus, de certa maneira, viam nesse outro as diferenças culturais, as formas de se comportar, não como mais uma possibilidade de como a humanidade vive. Mas viam, crescentemente, a partir do Século XVI, como sendo um sinal de inferioridade. Não só eram diferentes, mas inferiores. Os comportamentos que foram associados à população africana foram historicamente construídos como sendo da perspectiva negativa. A leitura que os europeus passaram a fazer era de que os africanos eram preguiçosos e indolentes. Portanto, se é negro, se tem as características físicas atribuídas à raça negra, logo ele é preguiçoso e indolente. Então, é essa associação entre o físico e o comportamento é que cria a noção de raça e de racismo, então, de hierarquização. É bom lembrar que o tráfico de escravos começa a ser contestado de maneira mais intensa a partir do começo Século XIX, no momento em que a revolução industrial está deslanchando. Esta imagem construída ao longo dos séculos sobre os africanos, deprecativa, racializada, é a imagem que também vai fazer parte do imaginário brasileiro. E com esse conjunto de associações, portanto, o escravo é um ser inferior, o escravo é negro, logo, negros são inferiores. Portanto esse processo todo tem a ver com a imagem que no Brasil, associada ao racismo científico, os nossos médicos participaram disso, sobretudo na Faculdade de Medicina da Bahia, o Raimundo Nina Rodrigues, Arthur Ramos, de alguma maneira, ajudaram a criar essa imagem de que a África, os africanos, por extensão os negros, são pessoas inferiores. Essa imagem persiste na sociedade brasileira. Persiste nos meios de comunicação. Não raro a imagem da África está associada com animais selvagens, a natureza indomável, ou a desgraça, miséria, fome, desastres, etc. Não que essas coisas não existam. Mas essas coisas são associadas exclusivamente à África, como se só essas coisas existissem na África. Esse é o grande drama. A África não é vista como um lugar de seres humanos, como qualquer outra humanidade, tem as suas grandezas e suas misérias. Normalmente o olhar é só para as misérias. Isso é resultante do processo de construção dessa visão em que só o conhecimento ajudaria a superar este tipo de visão.


Quais as semelhanças entre os primeiros contatos dos europeus com os africanos com o contato dos portugueses com os "nativos" brasileiros?
Há algumas semelhanças e outras nem tanto. Por exemplo, a África, o termo descoberto não é um termo que se aplica com segurança. A África nunca foi descoberta. Os europeus descobriam, por que não sabiam, certas coisas dentro do continente africano. Os europeus sabiam da existência da África. Os contatos diretos entre os europeus e os povos do continente africano durante pelo menos sete séculos e meio estiveram bloqueados, porque a expansão islâmica pelo Norte da África, que dominou o Centro Sul do Mediterrâneo, inclusive a Península Ibérica, e que o último califado foi derrotado em 1492, em Córdoba (Granada), no mesmo ano em que Colombo descobriu a América. Os europeus eram bloqueados, tudo aquilo que eles recebiam de notícia, de mercadoria, tinham que ser intermediado pelo domínio mouro, mais conhecido como árabe. Essa é uma das razões que levaram os empreendimentos comerciais, que levaram a burguesia portuguesa a buscar um caminho alternativo pelo mar, as rotas não controladas pelos mouros. Os europeus não descobriram, foram tendo contato com essas populações ao longo da costa africana a partir do século XV. A minha opinião é de que os primeiros navegantes reconheciam nos africanos hábitos diferentes, formas diferentes de comportamento etc. Alguns deles tinham postura frontalmente eurocêntrica. Viam de
maneira depreciativa tudo aquilo que, digamos, os negros faziam. Mas alguns deles reconheciam que esses negros tinham instituições, tinham religião, tinham fé, muitos escritos mostram claramente que estavam surpreendidos porque a maioria das populações africanas era monoteísta, tinham noção de que havia um Deus criador acima de todas as outras forças. Quando eles chegam no Brasil há uma espécie de choque, porque aquilo que eles encontram como forma de organização social, de valores, de estética, de comportamento inclusive comportamento corporal, destoa daquilo que eles tinham como parâmetro. E por algumas décadas, o Brasil e as populações indígenas do Brasil, chegaram a ser vistas como se aqui fosse o jardim do Éden. A terra era fértil, as frutas estavam disponíveis na natureza, a noção de que não precisavam trabalhar, as pessoas andavam nuas sem pecado, as pessoas faziam sexo sem achar que sexo fosse um desvio de comportamento ou um pecado, como de certa maneira era visto no mundo ocidental. Então, isso contribuiu para a formação da imagem de que aqui era o Paraíso. É importante lembrar que no imaginário europeu do século XV e começo do século XVI é profundamente marcado pelas idéias bíblicas. A idéia do trabalho, no mundo ocidental, por exemplo, era visto como uma espécie de punição divina. O homem vivia no paraíso, onde não se trabalhava. Cometeu o pecado original, foi punido por Deus com a obrigação do trabalho. Essa noção vai mudar com a ética protestante, segundo a qual se o trabalho foi uma imposição divina, devemos trabalhar ao máximo para agradar a Deus. Isso coincide com o capitalismo, com a emergência do capitalismo e, sobretudo, a partir do século XIX, fortalece-se a noção de que não trabalha é indolente, é vagabundo etc., o que vai se aplicar aos africanos. A mesma coisa vai se aplicar aqui. A noção de que aqui era o paraíso não dura muito. A partir do momento que os europeus estavam fazendo troca, comércio, pequeno comércio, quinquilharias, os nativos eram simpáticos. Mas a partir do momento em que os europeus quiseram escravizar os indígenas para transformá-los em escravos dos empreendimentos agrícolas, a reação foi violenta. Milhares de índios foram exterminados por conta disso, e foram escravizados, sobretudo no eixo em torno de São Paulo.


O senhor fala de discurso homogeneizado e desumanizador evidenciado pelo tráfico de escravos. Isso caracteriza o que o senhor chama de racismo científico?
Acho que o tráfico de escravos é em si desumanizador. Traficantes e senhores de escravos sabiam que tinham ali seres humanos. Eles não tinham bestas. Tanto não tinham que eles compravam seres humanos e não mulas ou cavalos. Havia duas justificativas. Uma que vem da antiguidade, do período da escravidão, o de “Guerra Justa”, que é retomada depois tanto no Brasil quanto na África, a idéia de que os escravos em função de uma guerra perdida, era justo que eles servissem ao dominador. O racismo científico vai emergir com força no XIX, no momento em que a escravidão está saindo de cena, mas está deixando toda a marca do imaginário associado à África, aos africanos e tudo o mais. Portanto, o racismo científico vai tentar
mostrar cientificamente porque é que os negros seriam pretensamente inferiores. E o faz de uma maneira completamente aleatória. Por exemplo, toda a tese de que certos traços dos negros lembram os macacos é completamente aleatória. Quais são os traços
que normalmente eles pegam? Formato do rosto, que é mais arredondado, que é próximo do rosto do macaco; formato do nariz, os negros têm o nariz mais achatado, no discurso racista estes seriam indícios de que eles estão próximos dos macacos e não dos seres humanos superiores, quer dizer o europeu. Os europeus têm muito mais pêlos corporais do que os africanos e portanto estariam mais próximos dos macacos. Por que este quesito não foi levado em conta em tais raciocínios pretensamente científicos? Porque os critérios tomados como científicos são na verdade critérios para demonstrar com argumentos falaciosos o que já tinha sido estabelecido; de que os africanos eram inferiores. Na verdade são critérios que de científico não têm nada, mas que tiveram grande impacto na montagem da justificativa retroativa do que tinha sido escravidão e projetiva para o futuro daquilo que seria a dominação colonial a partir dos anos finais do século XIX.

O senhor afirma que a primeira geração de negros vindos para o Brasil guardou lementos de sua origem, mas as outras gerações já eram a síntese das várias culturas? Quais culturas eram essas?
Nós tínhamos e temos uma multiplicidade grande de povos aqui, oriundos do continente africano. Até mesmo os nomes com que eles eram registrados no Brasil, por exemplo, Angola, Mina, Benguela, Moçambique,... São nomes genéricos, de portos de embarque de onde eram trazidos. São povos diferentes, muitos vêm da costa ocidental, outros tantos da África Central e Oriental. É um número extremamente grande de povos diferentes, que por vários motivos, foram arrancados do continente e trazidos como escravos. E o que acontece como qualquer primeira geração de migrantes, eles eram indivíduos que traziam profundamente em si a sua cultura. Mas a cultura é como uma planta: é preciso criar condições para que ela se
reproduza: cultura material, cultura espiritual... Se você não tem mais os meios, por exemplo, da culinária, se não tem mais os ingredientes, vai ter de se adaptar à culinária local. Os gostos vão mudando, os valores vão mudando. Além disso, no nível espiritual. Há uma série de práticas sagradas, rituais etc e etc, que só podem ser realizados em certas circunstâncias, em certos espaços, no âmbito de uma pequena comunidade ou de uma aldeia.

Quando você foi arrancado de lá, como é que você faz isso?
Você cria novas sínteses. Um exemplo típico disso é o candomblé. O candomblé como instituição tal como nós conhecemos e é praticado, sobretudo na Bahia e em outros estados brasileiros, mas digamos, há uma matriz muito forte na Bahia, você não encontra na África.


O que existe na África que se assemelha ao candomblé?
Na verdade o candomblé seria culto dos orixás, que são forças da natureza ou alguns grandes líderes, como é o caso de Xangô, um grande líder histórico de uma pequena região da Nigéria conhecida como iorubalândia, ou território de iorubá, e até o final do século XIX nem sequer reconheciam como sendo um povo. O modelo de organização deles era muito próximo das cidades-estados grega. Cada cidade era autônoma, tinha o seu próprio governo, a sua própria administração, e não um estado nacional. Falavam a mesma língua, mas da mesma forma que Esparta e Atenas se enfrentavam e tinham guerras e cultuavam deuses diferentes, no território de ioruba
também se dava isso. Os orixás lá são divindades específicas de cada uma das regiões, de clãs, famílias, etc. E foram trazidos para o Brasil e reunidos numa única organização, num terreiro de candomblé. Todos os orixás estão lá representados, principalmente os mais populares e que têm maior número de fiéis estão lá representados. Isso são sínteses novas dessas culturas que tiveram que se adaptar a essas novas circunstâncias.


Como o senhor analisa a importância da educação das relações étnico-raciais e o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana no Brasil?
Há uma imagem sobre a África que também é estendida para os afro-descendentes e negros em geral. Portanto, acho que o conhecimento sobre a história da África, calcado nas práticas historiográficas, como se faz para qualquer outra região do mundo, um conhecimento academicamente sólido, ajudará a desfazer esses mitos e estereótipos e ajudará a entender que as populações africanas e afro-descendentes no Brasil não são seres inferiores, são seres humanos como os de qualquer outra parte. Penso que debater as relações raciais no Brasil tem ajudado a pensar, inclusive, em busca da África. A edição da Lei 10.639/2003 é fruto de uma reivindicação da população, de movimentos organizados, mas também setores da academia brasileira, da universidade, que percebiam claramente que não é possível pensar a história da humanidade excluindo um continente. A África é um continente ausente dos livros escolares, dos currículos. Você pega o currículo de um curso história universitário e vai ver que é completamente centralizado na Europa. Você vê que a história do Brasil, da América, entra no momento da expansão dos europeus. É como se nada disso existisse antes dos europeus. E não tenhamos dúvida, somos descendentes de europeus, fortemente marcados pelas várias culturas européias, pela tradição do direito romano, pela versão européia do cristianismo... Mas também somos fortemente marcados pelas múltiplas culturas indígenas do Brasil e das múltiplas culturas africanas. Como vamos pensar a identidade brasileira se repudiamos estas duas outras vertentes que não a européia. Enquanto nos desconhecermos a história da África, tratando a África como se fosse um País, continuaremos a reproduzir estes estereótipos e vamos continuar reproduzindo estereótipos sobre a grande parcela da população brasileira que não é exclusivamente eurodescendente. Somos extremamente miscigenados, não só sob o ponto de vista biológico, mas sobretudo do ponto de vista cultural, quer dizer, comidas, gostos, temperos, hábitos etc etc. É uma grande síntese e em maior ou menor grau, dependo do Estado, da região do País, você tem uma forte componente originária de vários povos africanos.

Como não reconhecer isso num conhecimento acadêmico sólido sobre a África? 
Acho que a lei joga um papel extremamente importante na medida em que exige que isso seja ensinado e cria os mecanismos para isso. Ela incentiva conhecimento, embora nossa produção em termos acadêmicos sobre a África ainda seja pequena. O número de brasileiros que estudam a África é pequeno. Mas já há um material suficiente, que permite treinar as pessoas e enfrentar as questões em médio prazo.


Como está sendo o processo de implantação da lei no Brasil?
Há uma série de mecanismos que estão sendo criados. Um deles, é interessante notar, é justamente a implantação cada vez mais crescente de cursos e disciplinas voltadas para os estudos africanos nos currículos das universidades brasileiras. Quando em 1994 eu fiz um levantamento de quais eram os cursos superiores do Brasil que tinham pelo menos uma disciplina voltada para estudos africanos podia contar nos dedos da mão quantos eram, incluindo artes, literatura, história, geografia, todas as áreas de humanas, as outras nem pensavam. Hoje cerca de um terço de todos os cursos superiores de História do País temos disciplina de história da África. É verdade em que alguns a disciplina não é obrigatória, é um semestre só, etc. Mas há uma pressão muito forte para que isso ocorra. Só para você ter uma idéia, nestes últimos dois anos eu participei em oito ou nove concursos em universidades públicas para o ingresso de professores na área de história, mas também de literatura africana. Ao mesmo tempo, nas secretarias de educação, governos estaduais e federal têm buscado alternativas para qualificar os professores de maneira bastante acelerada. Aqui mesmo na UEG, no ano passado, graças aí ao pessoal do CIEEA, o professor Santana, a professora Eliete e outros, organizaram um curso de especialização em História da África, com algumas vertentes sobre questões afro-brasileiras, mas sobretudo da África, e trouxeram especialistas de vários pontos do País, eu mesmo tive a honra de vir aqui. Para uma turma de 80% deles de professores das várias unidades da UEG onde se ensina História. Portanto, são professores que vão ensinar História da África tendo tido pelo menos uma formação, no nível de especialização, em História da África. Portanto, a chance deles repetirem estes estereótipos que estão na mídia, nos livros didáticos, é bem menor porque já tiveram alguma qualificação. Aos poucos isso vai caminhando. Agora, novamente, o CIEEA, está organizando mais uma edição do curso. Hoje a maioria não é de professores da UEG, mas existem professores da UEG, professores universitários, estudantes de mestrado. Isso vai se consolidando. Em praticamente todo o País você tem cursos acontecendo com a mesma intenção, mesma preocupação e objetivos, de qualificar pessoas para essa demanda social por conhecer a África. Estamos vivendo uma boa maré. Agora, temos que ser realistas, uma série de construções do imaginário foram elaboradas ao longo de quatro ou cinco séculos. E não são em dois ou três anos que estas práticas pejorativas e racistas serão
suprimidas. Talvez seja um defeito de ser professor, mas eu sou iluminista, acredito que o conhecimento é o primeiro passo para a razão. Ter conhecimento sobre o outro, fundado em informações objetivos, é o caminho para humanizá-lo. Se você considera esse outro, que pode ser diferente de você, como parte da humanidade, onde só existe uma raça, que é a raça humana, você o considera como irmão. No caso brasileiro, o racismo e as práticas racistas, não é um problema dos negros, é um problema da sociedade brasileira. O dia que a sociedade brasileira superar isso vai ser melhor em todos os sentidos, mais harmônica, com mais gente integrada a pleno direito na cidadania, participando, contribuindo para o progresso do País em termos de educação, produção intelectual, industrial... Estes cursos ajudam neste sentido.


Como o senhor analisa o trabalho do CIEEA...
É um trabalho extremamente importante, pois o CIEEA dá assessoria, treinamento, ajuda a repor certas questões neste âmbito. Estes dois cursos de especialização são resultantes desta ação do CIEEA.

Como é que se forma? 
Forma-se com pessoas preocupadas, não necessariamente com grandes especialistas.

Quem é o núcleo fundador do CIEEA?
Nenhuma dessas pessoas são africanistas, não tiveram uma formação em África, não estiveram lá fazendo pesquisa. São pessoas que reconhecem a necessidade de que esse conhecimento da história da África é essencial para o conhecimento do mundo. Afinal de contas a África faz parte do mundo, faz parte da história universal, é berço da humanidade em termos de origem humana. É fundamental. O CIEEA desenvolve um trabalho muito importante neste sentido de quebrar com mitos, com esses estereótipos, criando possibilidade para que outras pessoas venham contribuir para esse empreendimento.


Entrevista à Tacilda Aquino

 

Ficha técnica
Título: De Escravo a Cozinheiro: colonialismo e racismo em Moçambique
Autor: Valdemir Zamparoni
Editora: EDUFBA
Páginas: 338
Preço: 40 reais

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