Projeto Igbadu e Mães de Santo - CieAA

Sobre o Projeto

Os projetos intitulados: Igbadu: História do Candomblé em Goiânia-GO e Mães de santo: domínios territoriais, sociais e históricos do sagrado em Goiânia-GO, financiados pela FAPEG para o período de vigência  de 2008- a 2010)  fazem parte do hall de pesquisas desenvolvidas no Centro Interdisciplinar de Estudos África-Américas – CieAA/NEAB/UEG. Ambos os projetos são coordenados pelas professoras/pesquisadoras Eliesse do Santos Teixeira Scaramal (História-UFG) e Mary Anne Vieira Silva (Geografia-UEG/UnUCSEH/Anápolis).

 

Esses projetos se configuram enquanto desdobramentos do projeto Aberém – África no Brasil – estudos de comunidades, religiosidades e territórios, financiado pelo CNPq no período de 2006 a 2008, coordenado por Eliesse Scaramal. Os projetos nascem da necessidade de se ampliar os estudos acerca das Religiões de Matriz Africana em Goiás, sob a argumentação de que tais religiões viveram e ainda vivem um processo de encobrimento historicamente imposto não tão somente no Estado de Goiás, mas também em todo o território brasileiro.

 

Nesse ínterim, constata-se que, a nível universitário, que a discussão em torno das Religiões de Matriz Africana (RMA) em Goiás ainda apresenta, de fato, pouco interesse e baixa visibilidade, conquanto venha ganhando destaque crescente a partir dos anos 2000.

 

Em 2002, pela Pontíficia Universidade Católica de Goiás, foi defendida uma dissertação de mestrado envolvendo as temáticas da identidade, do sincretismo e o Candomblé, pelo padre Célio de Pádua Garcia. Em 2005, pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), foi defendida por Léo Carrer Nogueira uma monografia que tratava sobre a Umbanda em Goiânia que, posteriormente, desdobrou-se em uma dissertação de mestrado pela Universidade Federal de Goiás (UFG) concluída em 2009. Ainda pela UEG, no ano de 2007, Marcos Paulo Ramos tratou do processo de negativação das RMA em Goiás a partir do discurso evangélico; em 2008, também pela UEG, Natália do Louzada e Clarissa Ulhôa ampliaram a discussão sobre as RMA em Goiás em suas monografias pelo curso de história.

 

Já no ano de 2009, pela Universidade Federal de Goiás, o geógrafo José Paulo Teixeira destacou a questão das paisagens invisibilizadas dos Candomblés em Goiânia em sua dissertação de mestrado. Ainda nesse mesma universidade, no Instituto de Estudos Sócio-Ambientais - no programa de pós-graduação em nível de doutorado em Geografia, atualmente desenvolve-se a tese apresentada por Mary Anne Vieira Silva.

 

O CieAA, com o objetivo de formar e qualificar pesquisadores, produz cinco monografias com temáticas relacionadas ao tratamento das RMA no que se refere seus contextos políticos (Políticas Públicas), manifestações culturais (Festas, Ritos), mapeamentos, estudos mercadológicos e fotoetnografias do povo de santo, seus espaços e rituais.

 

Tais publicações em âmbito acadêmico possibilitam, de certa forma, uma visibilidade dessas comunidades em seus contextos social, histórico e cultural, no que se refere à possibilidade de se instalar um fecundo debate capaz de promover discussões acerca das condições que assentam a situação de invisibilidade de grupos religiosos subalternizados no espaço social.

 

Não obstante, a intencionalidade maior na execução dos projetos acima citados é a de tentar enunciar tal questão e desmistificar determinadas induções imaturas sobre as religiões subalternizadas submetidas à construção de discursos negativados na sociedade brasileira, bem como estabelecer um contraponto propositivo para aqueles contidos no território de Goiás.

 

Nesse intento, foram levantados alguns dados referentes à religiosidade na cidade de Goiânia junto à Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento de Goiânia (SEPLAM). O que é possível perceber, até o presente momento, que há de fato um desconhecimento estatístico sobre o Candomblé na capital de Goiás. Outro problema se faz com a ausência de políticas públicas para as Religiões de Matriz Africana. O gráfico a seguir é demonstrativo das concessões de terrenos para entidades religiosas no período que vai de 1980 a 2005:


Fonte: Dados da Secretaria de Planejamento de Desenvolvimento de Goiânia SEPLAN-GO, 2007. Organizado por VIEIRA SILVA, M. A. e PENA. R. F. A.

 

 

 

Fica evidenciado que, dos 25 (vinte e cinco) terrenos doados pela prefeitura para a construção de templos religiosos, a maioria – 13 (treze) – foi doada para a religião Católica; outros 6 (seis) para as variações do protestantismo, 5 (cinco) para os Espiritualistas Kardecistas e 1 (um) para a Marçonaria.

 

 

Esses terrenos, ainda conforme dados da SEPLAM, dispõe de áreas públicas que já estavam reservadas a outros fins, mas que, por intervenções políticas, foram doadas para as entidades religiosas mencionadas no gráfico anterior. O gráfico abaixo é demonstrativo dessa afirmativa.

 

 

Fonte: Dados da Secretaria de Planejamento de Desenvolvimento de Goiânia SEPLAN-GO, 2007. Organizado por VIEIRA SILVA, M. A. e PENA. R. F. A.

 

 

Nota-se agora que, dos vinte e cinco terrenos doados para entidades religiosas, apenas dez eram originalmente designados para esse intento, os demais eram destinados para a construção de escolas e outros mais.

 


Assim, faz-se notável a realidade de que a laicidade estatal garantida em constituição é certamente questionável, uma vez que as religiões de matriz africana encontram-se excluídas do processo de doação de terrenos.


Soma-se a isso outros agravantes, como a não isenção de impostos, como o IPTU - direito esse que se faz presente apenas nas religiões de matriz judaico-cristã –, o não tombamento das casas de terreiro como patrimônio público religioso, a não divulgação do calendário festivo candomblecista em detrimento da divulgação de festividades cristãs, ausência de políticas de saúde pública destinadas aos zeladores de santo, ações de conservação e preservação dos recursos naturais que compõem a cosmogonia das religiões de matriz africana, entre outros.


Todos esses fatos levam à conclusão de que é preciso, de fato, buscar por medidas que visem sanar e/ou atenuar tais questões. É preciso, sobretudo, avançar no debate para a constituição de medidas em prol da igualdade religiosa no Estado de Goiás.

 


Nota: texto organizado por Mary Anne Vieira Silva e Rodolfo F. Alves Pena.

 

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